O naufrágio do PT em São Paulo
Depois de amargar
uma derrota acachapante no maior colégio eleitoral do Brasil, o PT de São Paulo está
fechado para balanço. As conversas para avaliar os erros e corrigir os rumos
devem se intensificar só ao final do segundo turno – até lá, o foco será evitar
um novo fiasco no dia 26 de outubro. Num ensaio do ajuste de contas, o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encarregou de dar o primeiro puxão de orelha.
Na segunda-feira, dia 7, em reunião um dia depois da derrota nas urnas, Lula
chamou atenção para o mau desempenho inédito do partido no Estado. Aos
correligionários, disse que não “dá para entregar tudo de mão beijada para os
tucanos”. Afirmou que, em caso de eventual reeleição da presidente Dilma
Rousseff, pedirá maior participação no governo para ser um interlocutor nos
movimentos sociais.
Anunciada havia
tempos por causa da força do antipetismo em São Paulo, a crise do partido no
Estado veio à tona agora, com os números das urnas. Dilma Rousseff, com 25,8%
dos votos válidos, diante dos 44,2% do tucano Aécio Neves, teve um dos piores
resultados de candidatos do PT em primeiro turno de corridas presidenciais em
São Paulo, o berço do partido. Desde 1989, os eleitores paulistas não se
mostravam tão descontentes com um postulante do partido. Naquele ano, Lula
estreou como candidato com 16,7% dos votos válidos. Dilma perdeu em cidades com
prefeitos petistas, como São Bernardo, Santo André, Guarulhos e Osasco. Foi
derrotada também em redutos simbólicos pela lealdade, como Campinas, onde o
partido teve participação intensa no movimento estudantil e grande penetração
nos sindicatos.
No âmbito
estadual, o candidato ao governo Alexandre Padilha teve 18% dos votos, a menor
votação de um concorrente do PT ao Palácio dos Bandeirantes em 16 anos. Foi o
quinto pior desempenho histórico do partido em disputas pelo governo paulista.
Só Lula, em 1982 (9,9%), Eduardo Suplicy, em 1986 (11%), Plínio de Arruda
Sampaio, em 1990 (9,6%) e José Dirceu, em 1994 (15%) tiveram votação inferior à
de Padilha. Nem mesmo o marqueteiro João Santana, famoso por já ter eleito seis
presidentes da República, conseguiu reverter a má vontade do paulista com o
candidato do PT.
Não bastasse o
malogro na disputa presidencial, o PT paulista perdeu cinco vagas na Câmara dos
Deputados. Nomes proeminentes como Cândido Vaccarezza, ex-líder do PT e do
governo na Câmara, e Devanir Ribeiro, amigo de Lula, não se reelegeram. A
bancada do PT na Assembleia Legislativa diminuiu um terço. Eduardo Suplicy,
símbolo do PT, despediu-se de uma longa trajetória de 24 anos no Senado,
derrotado pelo tucano José Serra numa proporção inesperada de dois votos para
um.
Há algumas
hipóteses para explicar a debacle petista em São Paulo. A mais óbvia delas é o
mensalão. Os petistas dizem que, só agora, um dos maiores escândalos de
corrupção do país maculou a imagem do partido com mais força em São Paulo. Três
dos mais notórios petistas presos pelo esquema – José Dirceu, José Genoino e
João Paulo Cunha – construíram sua trajetória política no Estado. “A denúncia
causou estrago nas eleições de 2006, mas foi algo pontual”, diz Jairo Nicolau,
cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Desta
vez, com a comoção das prisões, o estrago foi acentuado. Faltou autocrítica ao
partido.”

O método de
escolha do candidato a governador, desta vez, também não funcionou e mostrou os
limites dos poderes do ex-presidente Lula em eleger postes. A
rejeição a Padilha, inventado como candidato por Lula depois das vitórias de
Dilma para a Presidência e de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo,
foi também uma rejeição ao “dedaço” de Lula. “O candidato importa sim”, diz o
cientista político Carlos Pereira, professor da Fundação Getulio Vargas.
“Quando virou governo, o PT deu poder demais aos líderes para indicar novos
nomes. Errou ao não perceber que isso não funciona sempre.”
Lula dizia que
Padilha era o melhor candidato para derrotar o PSDB por causa do perfil
semelhante ao de um tucano. Mas muitos petistas dizem que ele jamais empolgou a
militância. E que a ministra da Cultura, Marta Suplicy, muito popular na
periferia de São Paulo, preterida em favor de Padilha, não se empenhou na
campanha como deveria. Outros apontam o dedo para o prefeito Fernando Haddad,
impopular. Os amigos de Padilha dizem que a atuação do governo Dilma na economia
ajudou a afastar o empresariado. No jogo de empurra, Lula culpou o partido
pelas dificuldades de Padilha. Toda eleição é assim. Nas vitórias, todo mundo
quer ser sócio. Nas derrotas, ninguém aparece para embalar Mateus.
Revista Época